Terça-feira, 3 de Julho de 2007
O Divino Palhaço da "Criação"
A capacidade que o Homem tem para o pensamento abstracto e para a imaginação, que parece faltar à maioria dos outros seres (senão todos), conferiu-lhe claramente o seu actual “domínio” sobre a superfície da Terra. Um domínio mesquinho que até então era disputado por milhões de minúsculos insectos e organismos microscópicos quase imutáveis e de lenta evolução, conforme lhes era permitido pelas raríssimas mutações no seu genoma. Surge o Homem e o mundo, até agora ambiente dos seres, torna se ser do ambiente humano.
Esse domínio, juntamente com a sua imaginação, conferiu ao Homem a ideia antropocêntrica, no qual este se encontra no topo, ao lado de Deus, sentado na perfeição. Porém, no meio de tantos seres e de tantos animais, o homem é o mais informe e ridículo. O mais rafeiro e banal dos cães consegue ter sentidos mais apurados e é infinitamente mais corajoso, para não dizer mais honesto e menos hipócrita. As formigas e abelhas são, de várias formas, mais engenhosas e gerem os seus sistemas de governo e de sociedade (ainda que considerados como “arcaicos”) com muito menos confusões, desperdícios e imbecilidades. O antílope é mais rápido e gracioso e o leão que dele se alimenta é certamente mais poderoso, se nos referirmos apenas ao Homem em si, sem a ajuda do ambiente criado por si. Qualquer gato doméstico é mais limpo, o cavalo, mesmo suado, cheira melhor e o gorila é por várias vezes mais gentil com os seus filhos e fiel à companheira. Mas, acima de tudo, o Homem é deficiente em “coragem”, talvez a mais nobre de todas as qualidades abstractas por ele criadas. O seu terror mortal não se limita apenas a todos os seus animais do seu próprio peso, ou mesmo de metade do seu peso – excepto uns poucos que ele foi degradando por cruzamentos artificiosos e selecção artificial – o seu pavor mortal atinge patamares mais elevados quando perante alguém da sua própria espécie – e não apenas dos seus punhos, pés e armas, mas até dos seus risos.
Todos os erros e incompetências do “Exmo. Sr. Criador Perfeito da Natureza” (leia-se com algum sarcasmo) parecem ter chegado ao clímax divino no Homem. Como peça de mecanismo, o Homem é o pior de todos os outros produtos do “Exmo. Sr. C.P.D.N.” (leia-se com um sarcasmo redobrado); comparados com ele, até um salmão ou o mais ridículo dos pássaros são máquinas sólidas e eficientes. O Homem transporta os piores rins conhecidos na zoologia comparativa, os piores pulmões e o pior coração. O “Criador” de tal bronco aparelho deveria ser surrado pelos seus fregueses. Ao contrário de todos os outros animais terrestres, marinhos, o ser Humano é actualmente incapaz de se viver sozinho no mundo natural. Precisa de viver no mundo criado por ele, de se vestir, proteger e armar-se para sobreviver, encontrando-se sempre na posição de uma tartaruga que nasceu sem a carapaça, de um cão sem pêlos, de um tigre sem garras. Sem as suas sucessivas criações, torna-se indefeso até contra as moscas e Deus nem lhe concedeu uma cauda para as espantar.
O Homem é então, na sua essência mais simples, um ser desajeitado, frágil e tosco, apenas lhe valendo uma mente capaz de criar utensílios e formar sociedades cada vez mais intrincadas, cada vez mais envenenadas. É um ser amargurado que, ao contrário do que pensa, tem como fraqueza, não apenas a imperfeição do seu maquinismo, mas também a sua vida vaga e vazia de significado.
Não é de surpreender que a imaginação do Homem, que tanto teima em colocá-lo no centro de um Universo frio e escuro que não é de ninguém, seja a culpada por esta singular fraqueza. Tal capacidade foi o que lhe permitiu dar o primeiro salto sobre os seus colegas primatas, avançando uns (numerosos e numerosos) anos de evolução em relação a estes. Permitiu-lhe visualizar na sua mente uma condição de existência melhor do que a sua e, pouco a pouco, tornou-o capaz de retocar esse quadro cru da realidade cinzenta e dolorosa com alguma fantasia e alguma cor. Ainda hoje ele se mantém dessa forma – pensa em qualquer coisa que gostaria de ser ou ter, algo bem melhor do que o que ele ou outro já tem e então, por um processo custoso e difícil, de erros, acertos e remendas, vai tentando chegar ao que quer, sem se aperceber de que é apenas mais uma formiga fútil de um grande formigueiro – a sociedade por ele criada. Durante o processo é muitas vezes punido pelo seu descontentamento ou com as leis de um Deus – fruto da imaginação de outrem. Rói as unhas, coça o queixo, sofre, chora, tropeça, cai e, finalmente, o prémio que ele tanto buscava derrete-se nas suas mãos, marcando o início de mais um ciclo que precederá outro e mais outro e outro mais até ao dia da sua morte, em que os mesmos micro organismos que disputavam a terra se alimentarão dele como se alimentam de qualquer outro pedaço de matéria orgânica morta. Infelizmente, nunca se contenta com este processo lento e sanguinário. Está sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive a imaginar coisas inexistentes além do arco-íris. Este corpo de imagens constitui o seu stock de doces credulidades, fé e confiança – em suma, o seu fardo de erros. E este fardo de erros é que distingue o homem, mesmo acima da sua capacidade de chorar, do seu talento para mentir, da sua excessiva hipocrisia e bazófia, relativamente a todas as ordens de mamíferos, incluindo a sua própria espécie. O homem é, par excellence, um ingénuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crónica e inevitavelmente enganado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – pelo seu incomparável talento para pesquisar e adoptar o que é falso ou lhe é impingido, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro.
O ser humano tornou-se ao longo do tempo um mero utensílio da sociedade. Cada um pensa que vive a sua vida, que é único e especial, sem se aperceber do mero peão que é num tabuleiro de xadrez ainda maior. É despejado e cuspido para o mundo por um antepassado, que finalmente se sente, no seu subconsciente, cumprido por deixar a sua carga genética mais uns anos no mundo, no interior de um herdeiro que passará pelos mesmos tormentos da vida que ele passou enésimas vezes, e de seguida absorvido pela sociedade. O mundo abre-se como um sonho promissor e aparentemente frutífero perante a nova vida, que é então consumida pela sociedade que a “educa” e lhe transmite o seu saber, os seus vícios, os seus dogmas para de seguida ser posto ao serviço, não dos seus próprios sonhos (oh, quão impossíveis são), mas dessa máquina cruel que é a sociedade.
Essa máquina oleada tornou-se auto sustentável – elimina as peças soltas que lhe são inúteis e que para si não contribuem, ou seja, destrói tudo aquilo que contraria o seu funcionamento – criminosos, génios, revolucionários, visionários, “sociopatas” que tentam reverter a ordem desse sistema ou que sejam “inconvenientes” para uns são apagados. As bases da sociedade foram-se edificando sucessivamente desde a antiguidade quando certos homens, que inventaram novas imbecilidades, receberam salvas de palmas e se tornaram donos da verdade para as grandes massas. Se dermos um giro pelos últimos anos da sociedade descobriremos que uma esmagadora maioria dos ídolos populares do Mundo não passaram de casos baratos de nonsense Mas que mesmo assim, ainda hoje, as suas ideias se fazem valer. Tem sido assim na política, na religião e em qualquer outro departamento do pensamento humano e tudo isto começou desde que o primeiro gorila “avançado” vestiu cuecas e saiu para dar conferências, para filosofar ou para espalhar a fé. A verdade tem se erigido ordenadamente sobre bases incertas do passado das quais a sociedade nunca abdicará, sob o risco de baquear sob si mesma deixando as pobres formigas desorientadas. Tais bases já sofreram alguma oposição, uma vez ou outra, de críticos que denunciaram os seus criadores como charlatães e os refutavam assim que abriam a boca. Mas, ao lado de cada um desses “cabotinos intrujões” havia a titânica força da credulidade humana, e isto bastava para que os seus inimigos fossem destruídos e a sua própria imortalidade fosse estabelecida.
O_ANTICRISTO
AlterEgo
HellSeed
"O que a história conta não passa do longo sonho, do pesadelo espesso e confuso da humanidade."
Música: Creep - Radiohead
De Sem nick a 3 de Julho de 2007 às 13:35
Muito bom post, excelente!
Concordo a 100%.
De Cubs a 4 de Julho de 2007 às 00:35
Eu adorei este post... está realmente "realista"... não sei o que dizer... sem palavras. continuem assim.... ;)
De Sem nick a 5 de Julho de 2007 às 18:58
Aqui está o link de um video que está de certo modo relacionado ao conteúdo deste post.
http://youtube.com/watch?v=DRJqrLd7MrE
Por acaso tem mesmo.
O vídeo está excelente, obrigado, volta sempre.
De rakelinhah a 6 de Julho de 2007 às 01:31
Oi e a primeira vez k eu visito este blog, adorei os posts que criticam a sociedade, assim como os que criticam a televisão portuguesa, mas nao consigo perceber pk é k tens estes pots assim maistenebrosos, sao assuntos k pessoalmente te agradam, ou queres mostrar algo em relaçao a ti?
De Sem nick a 6 de Julho de 2007 às 12:25
Eu digo-te que são ralistas.
De Sem nick a 6 de Julho de 2007 às 12:59
Realistas.*
De Joana a 11 de Julho de 2007 às 18:39
Antes de mais, ainda bem que a 'hibernaçao' nao foi longa... Quanto ao posto, é muito realista(não que os outros não sejam), a intençao não era dizer o que os outros disseram, que o post era realista, mas é verdade e pronto.... É verdade sim, que somos uns macacos um pouco menos civilizados que os selvagens...(inspirado no video de ontem)
Um aparte, hoje nao é dia de inspiraçao como tinha dito que comentava quando a tivesse, mas puff, tava aqui assim a olhar po balao, comos e costuma dizer e puff, na proxima quiça nao sai uma coisa melhor:D
De
mac a 11 de Julho de 2007 às 19:22
E quem disse que nós somos a criação mais perfeita da natureza? Somos 1 verdadeiro aborto e uns freaks.
De ribeiro a 13 de Julho de 2007 às 15:46
Regresso Divinal!! Valeu a pena esperar ;) Grande Post! Parabéns mais uma vez.
Abraço
De Rogério Vincente a 23 de Julho de 2007 às 00:53
Grande Blog, sim senhor gostei do que li até agora, força com isto!
Dêem-lhe com força!
Comentar post