O sono é curioso. Quando acordamos, custa-nos a crer que, naquele período em que para nós o tempo não passou, algo tenha acontecido, algo tenha mudado. O sítio em que adormecemos nunca é o mesmo onde acordamos, continuaremos a ser a mesma pessoa? Ocorreu o último dos 9.192.631.770 períodos de transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de Césio-123. Isto significa que, para um relógio atómico, acabou de passar o período correspondente a um segundo. Os outros relógios do Mundo tinham este por referência: a hora marcada por esta precisa máquina era aquela a de que todos os outros se tentavam aproximar. O despertador tocara novamente numa série de estridentes e ásperos “beeps” que me arrastavam contra minha vontade para a dura e pesada realidade, como em todos os demais dias da minha vida, semana a semana, dia por dia… Não olhei para ele – certamente que nele estava marcada a mesma hora de sempre, padronizada a nível mundial, cópia da cópia da hora de um qualquer outro relógio a pulsar algures no mundo, para que todos possamos viver sincronizados, no mesmo tempo. Após me ter levantado, carregando no corpo e na mente o mesmo pesar, as mesmas dores e os mesmos anseios e preocupações que sentira no dia anterior, minutos antes de adormecer, deambulei como um fantasma pela tácita casa preparando-me para mais um dia em sociedade. Vontade nula, obrigação infinita - desejo de ainda estar a dormir, de nunca ter acordado. O frio do dia que ainda escuro me aguardava trespassava-me o corpo como uma torrente de adagas. Juntando, num esforço hercúleo, todas as réstias de força de vontade que em mim ainda restavam (faço lá ideia onde) saí do aconchego do meu lar para a larga e ainda deserta rua. A minha história começa aqui. Na movimentada e fervilhante estação de comboios onde, sentado no banco do costume, aguardo taciturno a hora de passagem do meu habitual transporte que em breve, de vinte e seis a quarenta e oito segundos depois da hora marcada no horário, afixado no átrio da estação há já três meses, uma semana e três dias, apareceria no horizonte, rangendo ao longo dos carris da linha número um. Olhei em volta, observando o fluxo contínuo de carne humana que me rodeava e envolvia, num diabólico frenesim – pessoas a entrar em transportes, pessoas a sair de transportes, pessoas ao telemóvel, pessoas apressadas, pessoas a consumir, pessoas de pasta, homens de fato e gravata, mulheres de vestido e salto alto. Sorrisos falsos, olhares cínicos, hipocrisias, bazófias, narizes empinados, ares de superioridade, seres humanos estandardizados, com prazos de validade, como que produtos de produção em série da fábrica auto-suficiente que é a sociedade. As pessoas seguiam as suas rotinas tornando-se bonecos de corda de si próprias. Macacos de fato, macacas de trajes dispendiosos. Com a minha presença estática e analista ali no meio, toda essa massa homogénea, dinâmica, fluida e diligente que era a multidão que se deslocava em meu redor, escorria para a sua miserável vida e para a sua inevitável morte, sem o saber. Cada um dos elementos daquela polpa antrópica que borbulhava e zumbia à minha volta teria a sua rotina, a sua dívida para com a sociedade que lhe possibilitava a sua subsistência. Porém, cada um deles, abafado pela sua existência rotineira que lhes sugava a vida minuto a minuto, pelos dogmas que lhes eram incessantemente marchetados nas suas mentes já conspurcadas, pela própria sociedade consumista e governada pelos média, ignorava a sua insignificância e a sua dispensabilidade. Não passavam, como eu, de bonecos de corda que no seu todo formavam a grande ópera da vida – bonecos que depois de receberem corda executariam repetida e mecanicamente os mesmos movimentos, as mesmas acções até… caírem sem força e serem descartados, substituídos. Fui acordado dos meus pensamentos por uma intempestiva discussão que eclodira nas proximidades do lugar onde me encontrava. Duas pessoas defendiam ferozmente a sua “dignidade”. Lutavam por um valor humano que nem sequer existe, sem saber que as palavras com que se debatiam não passavam de vibrações que, causadas pelas suas cordas vocais nas moléculas do ar húmido que os rodeava, se propagavam em todas as direcções do meio que os envolvia. O debate foi-se alongando, e os dois indivíduos iam-se, virtualmente, espezinhando um ao outro numa tentativa de ouvir um “Pronto, tens razão. És superior a mim.” que nunca sairia da boca do seu adversário. Sorri levemente, ou pelo menos fi-lo mentalmente – nenhum deles era superior ao outro, não passavam da mesma coisa – amontoados de matéria e processos físico-químicos que lhes conferiam a capacidade momentânea de se manterem a funcionar um conjunto de complexos sistemas que lhes permitiam pressentir, reagir e resistir às pressões que o meio exterior sobre eles exercia, desgastando-os lenta e eficazmente ao longo de cada segundo. Todas as suas emoções e sentimentos não passavam de reacções químicas que se propagavam ao longo de todo o corpo, por ordem e meio de diversos sistemas orgânicos. Todas as suas memórias não passavam de ligações entre os milhões e milhões de neurónios que o seu cérebro albergava. Se havia lugar onde um deles era superior ao outro, era tão só e apenas na sua própria mente. Trinta e seis segundos depois da hora marcada no horário, o comboio parara à minha frente, com a quarta porta a contar de trás mesmo em frente do local onde eu estivera sentado, tal e qual acontecera em todos os outros dias até então. A maré de gente escoava vibrantemente em ambos os sentidos e, rodeado por ela, entrei. No comboio voltei a ser absorvido pela minha cogitação. Observava o mundo em meu redor mas com os olhos agora completamente desimpedidos da areia que me era constantemente atirada. A paisagem deslizava velozmente pelas janelas como telas surrealistas e, olhando pelas janelas, parecia que eu estava estático e que o mundo inteiro corria para trás de mim – relatividade. Cada indivíduo vê-se como o centro do seu Universo. Enublado, cinzento e húmido, o dia tinha nascido e os raios de sol pintalgavam brandamente a mórbida paisagem urbana, na qual alguns pedaços de Natureza ainda tentavam resistir. O ambiente tornava-se ainda mais insuportável para mim. Todo aquele fervilhar que tanto me ia entupindo os nervos com raiva comprimira-se agora nos escassos metros cúbicos daquele volume fechado que era o comboio. Mais marionetas, mais ruídos, mais movimentos, todo o ar cheirava a stress, a falsidade. À minha frente sentara-se um qualquer badameco muito “senhor do seu próprio estilo”. Sentou-se, olhou-me de alto com um ar de preeminência e começou a pressionar furiosamente os botões do seu telemóvel, talvez escrevendo uma mensagem ou talvez querendo parecer ocupado, comunicativo, popular, sociável. A meio desse seu acto comunicativo(?) ajustou discretamente a roupa que envergava de modo a que os logótipos das marcas ficassem agora visíveis. Pobre criatura, pobre boneco de corda ou peça de xadrez. Não és aquilo que vestes, não és o trabalho que tens, não és o dinheiro que tens na tua conta, não és o carro que conduzes ou o telemóvel que usas, não és aquilo que te fazem comprar, não és os documentos que ocupam a tua carteira comprada vá-se lá saber onde e sabe “deus” por que preço, não és único, não és especial, és tão só e apenas mais uma aglomeração material feita da mesma matéria orgânica decadente que o que vês à tua volta nos cães, porcos, árvores e bactérias. Fazes parte da espessa nojeira que dança à espera da morte neste Mundo. Estás a apodrecer, gradualmente e sem te dares conta, perdido nessa tua vida superficial, sem qualquer consciência própria e exterior, tão digna como a de um musgo. Essa matéria de que és feito, molécula por molécula, átomo por átomo, foi sintetizada por uma estrela, que morreu algures neste universo há tal quantidade de tempo que nem julgas ser possível existir. Vieste do pó das estrelas. Pó foste e pó voltarás a ser. O Mundo não brilha nem espera por ti ou para ti. A sociedade apenas quer que a sirvas, trabalhando para que possas ter dinheiro para comprar coisas de que nem precisas, e o Universo está apenas à espera que não resistas mais e te desmanches, rasgues, apodreças e vaporizes. Voltarás a ser o pó devorado por uma outra estrela, que quem sabe dará origem a mais um sopro de vida que, como eu, estará sentado a questionar o que o envolve, absorve e atormenta. A luz do Sol nascente penetrava nas janelas da carruagem, tornando todo o interior em algo difuso e turvo. Dificilmente conseguia distinguir o que era o quê dentro do comboio. O que me estaria a acontecer? Observei a ponte por que passava – erguida graças a inúmeros cálculos de gente que foi paga para os fazer e cuja precisão foi devida a computadores, cujo planeamento, concepção, montagem, venda dependera de mais alguém. Cálculos esses de uma matemática que tem sido desenvolvida numa tentativa de gerar algo de completamente certo e perfeito no mundo. Subitamente – um estrondo e fui catapultado para a frente. A multidão desatou a gritar histericamente quando sentiu em força a aceleração gravítica. A ponte partira e o comboio precipitou-se para o rio. Deu-se o acordar da besta animal oculta no interior de cada um daqueles infelizes que tinham entrado no comboio errado à hora errada – acotovelavam-se, gritavam, espezinhavam-se e guinchavam em pânico enquanto a água ia fluindo para o interior. O “badameco” não já poderia comprar a camisola que tanto desejava, aquela senhora tinha acabado de gastar cento e dez euros e noventa e nove cêntimos nuns sapatos que lhe teriam durado apenas duas semanas caso não fosse esta a sua hora, aquele homem nunca saberá que aquele seria o dia em que ia ser despedido do emprego que tanto detestava. Frustração por não alcançarem os seus mesquinhos objectivos corria-lhes nas veias. E o nível da água estava cada vez mais alto… Abri os olhos. Tinha adormecido - durante os últimos tempos eu tinha dificuldades em adormecer quando era preciso. Insónia... Quando se está com sono, nada é real. Tudo está distante e é a cópia de uma cópia de uma imitação. - e tudo o que se passou no último parágrafo não passou de uma imitação fechada sob si mesma que o meu cérebro criou naquele breve momento em que a consciência se colocou em latência. O “cenário” já não era o mesmo – o badameco já não estava à minha frente e com ele tinha saído mais de metade das pessoas que comigo viajavam, talvez pouco antes, na zona industrial. Acordei num outro local, num outro tempo. Continuava a ser a mesma pessoa. A viagem estava prestes a terminar. Vagueio pela apinhada rua. Carros, telemóveis, roupas, letreiros, cartazes publicitários, montras garridas. Observo pessoas coladas às montras, gente apressada, gente falsa ao telefone, desgraçados na miséria a pedir a ricos que morrerão como pobres. Vejo falsidade, vejo hipocrisia. Sei que as pessoas que me cumprimentam e elogiam com um sorriso rasgado quando passo estarão a apunhalar-me nas costas dentro de minutos, a rir, a murmurar, a comentar qualquer insignificância com alguém. Vejo, por vezes, à minha volta as pessoas mais brilhantes e com mais potencial que, provavelmente, alguma vez pisaram este mundo. Essas pessoas estão ou subjugadas ou a servir outras, quem sabe tão mais incompetentes e ainda mais descartáveis, quem sabe o mesmíssimo lixo. Escravos de colarinho que morrerão a tentar ser alguém, a tentar ser aquilo que sempre quiseram ser, a procurar o que pensam que desejam. A publicidade deixa-nos a perseguir carros, roupas, trabalhos que tanto odiamos só para que possamos comprar coisas de que nem necessitamos. Fomos todos criados pela televisão para acreditarmos que todos poderemos ser milionários, estrelas da música, do cinema ou da moda, mas não seremos. Criados para ser consumistas. Produtos da nossa obsessão por estilos de vida. Morte, crimes, pobreza, todo um mundo a virar lixo são coisas que não importam. O que importa são as revistas de celebridades; ficar sozinho à noite alapado num sofá a fazer zapping pelos quinhentos canais numa nova televisão com tecnologia de ponta fabricada pelos modestos trabalhadores do país de tão-pouco-importa-onde, enquanto entupimos as artérias com gordura de alimentos industrializados, feitos com tanta porcaria que mais valia comer a bela e atraente embalagem; o nome de algum estilista estampado na roupa interior; o último modelo; o último grito. Compras um determinado objecto e pensas “Este é perfeito, nunca mais terei que comprar outro igual.”. Então, passados uns anos, estás satisfeito pois, o que quer que se passe de errado na tua vida, ao menos trataste do teu desejo de comprar esse objecto. Depois o mesmo se passa com o telemóvel, depois com o casaco perfeito. O carro. Os sapatos. A mala. As jóias. Mais tarde apercebes-te de que afinal nenhuma dessas coisas era perfeita. E depois, rodeado pelos teus adoráveis objectos não te apercebes de que as coisas que tens acabam por te ter a ti - fúteis e inúteis, tal como tu. Aquilo que tanto desejamos, custe dinheiro ou não, e nos custou a alcançar vira lixo passado algum tempo. Todas as conquistas viram pó. Perseguição de bens materiais, de imagens, de sonhos. Minuto a minuto somos manipulados, julgamos que algum dia poderemos ser felizes e alcançar tudo aquilo que sonhámos. Isto é a tua vida, esgotando-se segundo a segundo. Reconheço os rostos por que passo, mesmo não conhecendo as pessoas. Conheço os seus hábitos e crio mapas mentais da vida dessas pessoas. “Abrir a loja às 8. Vender. Vender. Sorrir. Vender. Repor stock. Fechar a loja às 7. Abrir a loja às 8…”; “Avião para lá. Avião para cá. Engraxar aqui. Comboio para ali. Táxi para acolá. Adiantar o relógio uma, duas, três horas.”. Dias rotineiros, ciclos que se repetem indefinidamente. Incompetência, ignorância, falsidade, omissão, consumismo, fé e crença cega. Autómatos, seguidores do “programa” que lhes é implantado na mente. “Tenta ser feliz.”; “Faz dinheiro!”; “Trabalha para o bem comum.”; “Um dia conseguirás o que queres!”. Grandes Homens? Não os vejo, apenas vejo actores representando o seu próprio ideal. Pavões que exibem as suas plumas e ocultam as suas caudas desgrenhadas, naquilo a que chamam “orgulho”. O melhoramento próprio como caminho sem saída, a auto-destruição como única solução. A raiva por este formigueiro humano cresce e transborda de mim. Sujidade e imundice por todo o lado. Os caixotes do lixo transbordam. O chão está cheio de embalagens usadas de comida rápida (porquê perder tempo em comer quando podemos estar a fazer dinheiro?). O ar cheira a escape, a gasolina queimada e a gasolina cheira a dinheiro puro. Vejo campanhas ecológicas criadas por indivíduos que gastam o dinheiro que com elas ganham em carros, em indústrias, em variadíssimos aparelhos electrónicos que consomem mais e mais energia. O mundo é de todos. Durante milhares de anos os seres humanos consumiram, sugaram, sujaram, deram cabo e lixaram este maldito planeta e agora a História espera que eu o limpe para todos. Que eu lave todas as embalagens que gastei, que me sinta culpado por cara gota de óleo que se gaste, por cada botija de gás que use, por cada televisor que fique em standby. Tenho que pagar a conta dos resíduos nucleares, combustíveis queimados e terrenos preenchidos com sujeira tóxica de gerações antes de eu nascer. Assim se nutre um ódio pela humanidade, por esta sociedade. Assim se perde a fé na humanidade. Com rotina, razão e atenção. Ver que tudo o que alcanças vai parar ao lixo até ao dia da tua morte. Que por mais que a ciência evolua, o Mundo nunca será um bom lugar para se viver. Sentir a vontade de acordar toda esta maldita biosfera humana para tal mediocridade, para tal evidência clara e simples que é uma vida desprovida de sentido, sem um criador, sem uma moralidade correcta. O impulso de destruir. Vivenciar o desejo de rebentar com petroleiros e destruir todas essas lindas praias tropicais que nunca verei, que tanto dinheiro rendem a alguém. De demolir edifícios, deitar pontes abaixo, abrir barragens. De tornar o dia geométrico e regular de alguém em algo insólito, heteróclito. De mandar abaixo os monumentos. De pôr toda a gente a respirar todo o fumo que ela própria produz. De deixar meio mundo aterrorizado, espalhar o caos e prosseguir contra o fluir natural da humanidade. De deitar fogo a uma cidade, a um país, ao Mundo, para que “Deus” olhasse atónito cá para baixo. Queimar, demolir, rebentar, destruir, partir... De destruir tudo o que é belo. A crença no nada. A fé no vazio. A vida mais doce será a de não pensar em nada? A de seguir o que verdadeiramente se quer, a satisfazer os instintos? Aquilo que é feito é sempre maior do que a própria moralidade? Não há factos, só há interpretações. Quando avassalamos a nossa consciência ela tanto nos beija como nos morde.
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